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Luto: A falta e a fala

  • 3 de jul.
  • 2 min de leitura

Perder, acabar, mudar, recomeçar… As marcas que esses movimentos deixam em nós, como pegadas profundas na areia da praia, doem. Às vezes, essa dor parece cavar buracos em nossa rotina, esvaziando o que antes era cheio de vida.


Ao contrário do que muitos pensam, não existe um prazo de validade para o luto. O que acontece, com o tempo, é que novas experiências começam a ocupar os vazios deixados pelas perdas. Mas, até lá, é preciso tempo.


Viver o luto não é uma doença; é uma "depressão" da vida. E aqui, não uso a palavra depressão no sentido do adoecimento, mas sim no sentido geográfico. Você já reparou no quanto a própria natureza se deprime e, naturalmente, retorna? Um urso entra em um estado de declive no inverno, hibernando, para retornar forte no verão. As folhas caem das árvores no outono para que a vida floresça na primavera. Nós, seres humanos, também temos nossos invernos. O luto é esse declive necessário, e não uma patologia.


É importante lembrar que o luto não acontece apenas quando perdemos alguém que amamos. Nós também enlutamos quando perdemos um emprego, mudamos de cidade, encerramos uma etapa da vida, passamos por um divórcio ou até mesmo quando vemos um filho crescer e ganhar o mundo.


A vida nos convoca, a todo instante, a elaborar muitas perdas. E a psicanálise entra justamente aqui: para tornar esse atravessamento menos doloroso, menos solitário. Investigar o que esses vazios representam, ao lado de um analista, é ter a chance de dar nome às suas dores.


Diferente do que o ritmo acelerado do mundo atual tenta nos impor — que devemos cumprir "passos do luto" ou fazer um curso rápido para aprender a sofrer menos —, a psicanálise propõe algo mais humano. Ela nos convida a acolher as marcas que ficaram daquilo que se perdeu. Na análise, não tentamos apagar o que foi vivido, mas sim criar um novo lugar interno para essa memória. E, sim, fazer esse movimento dói.


O luto nos convoca a olhar para as marcas que as pessoas e as fases deixaram em nós: os caminhos que percorremos juntos, os sabores, os cheiros, as conversas. Atravessar tudo isso não tem cronômetro. Cada dor tem seu tempo, e cada ser humano reage de uma forma única. Mas há algo que ajuda a aliviar o peso: poder falar.


Em uma análise, você pode falar sobre a sua dor sem o medo do julgamento e sem a pressão do relógio. É um espaço seguro para nomear o que sente, sem ser direcionado por conselhos baseados na história de outra pessoa. A sua história é só sua.


O luto é uma perda que precisa ser traduzida em palavras. Poder falar com alguém que reconhece a sua dor, sem patologizá-la e sem pressa de mudá-la, é o maior ato de cuidado que você pode ter consigo mesmo.


Sou Daniela Leme | Psicanalista

Atendo adolescentes, adultos, casais e famílias no Espaço Vida Acolhida.


@danielalemepsicanalista

 
 
 

1 comentário


Jéssica da Silva  Lisboa
Jéssica da Silva Lisboa
há 3 dias

Quanta beleza e delicadeza em um texto! O luto de fato não é doença, e não deve ser curado, mas sim vivido e atravessado. ❤️

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