A consciência da finitude nos convoca a viver
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Quando se fala em morte, muitas pessoas tendem a correr do assunto, considerar mórbido, sombrío, como algo que deve ser evitado a quase qualquer custo. Quem nunca ouviu a clássica frase “bate na madeira” ou “não fala sobre isso senão vai atrair”? O assunto “morte” surge, e o clima tende a pesar, as pessoas a ficarem constrangidas, e o ambiente se densifica a ponto de quase se tornar sufocante. Mas, aceitando ou não, a morte está na nossa vida o tempo todo em seus muitos ciclos de vida-morte-vida. Somos seres vivos cíclicos e finitos. Portanto, iremos morrer. Por mais desconfortável que seja falar sobre isso ou assumir essa consciência, é o único fato dado e irreversível na vida.
A consciência da morte abre espaço para a vida
Ter consciência de que somos finitos pode ser angustiante. Nos leva a encarar o nosso próprio fim, e o das pessoas e outros entes amados. Por isso temos a tendência de fugir do assunto, de “esquecer” momentaneamente que a morte existe, e fazer de tudo para evitar sua chegada. Essa fuga é também uma forma de proteção diante da angústia, como uma tentativa de nos preservar e proteger do que causa dor. Mas, pensar na finitude também abre espaço para pensar na vida, e que vida é essa que temos vivido. Ao nos percebermos finitos, podemos questionar e pensar sobre a própria existência:
essa vida que tenho vivido é a vida que escolhi para mim?
quando olho para minha existência, despida de todos os rótulos e todas as exigências de ter de ser alguma coisa, o que sobra? e o que sobra, me satisfaz?
a vida que estou vivendo me permite que de fato exista vida, e não só demandas a serem atendidas e prazos a serem cumpridos?
Ao pensar nas questões acima, é quase inevitável se inquietar na procura de respostas, e um caminho possível para tal inquietação é o engajamento na própria vida, a fim de colorir de sentido.
Ser-para-a-morte: a consciência que nos lança para o projeto da existência
Em sua obra mais conhecida, Ser e Tempo, Heidegger apresenta o conceito de ser-para-a-morte, que diz respeito ao nosso caráter de nos projetarmos em vida diante da possibilidade da morte. E o que isso quer dizer?
Vejamos: Enquanto seres que pensam sobre si, estamos o tempo pensando e construindo a própria existência. Nessa construção do existir, nos projetamos em um futuro possível onde muitas possibilidades são apresentadas e escolhemos aquelas que mais fazem sentido para cada um de nós. As opções são finitas no sentido de que cada pessoa vai ter acesso a uma gama de possibilidades em um dado mundo. Mas isso não significa que as escolhas nos definem e nos determinam. Pois enquanto existência, somos indeterminados. O ser humano está sempre em construção e nunca se completa totalmente, nunca se acaba.
O único acontecimento que nos completa de fato é a morte, pois é a morte que põe um fim em toda e qualquer possibilidade. Assim, a morte é a última e extrema possibilidade, pois impossibilita todas as escolhas. Dizemos então que a morte é a possibilidade da impossibilidade: quando ela chega já não permite mais escolha.
Pensar nesse findar é angustiante, e a tendência do ser humano é fugir dessa angústia. Como uma forma de lidar com o angustiar-se que a morte apresenta, nos projetamos em um futuro desejando concretizá-lo. O engajamento no projeto existencial, que nada mais é do que escolher entre as possibilidades e construir a própria existência, nos ajuda a lidar com a angústia da finitude, pois nos coloca em movimento para realizar as opções escolhidas.
Dessa forma, ser-para-a-morte é se movimentar na própria vida, sempre buscando e construindo sentido enquanto for possível.
Qual a vida que vale a pena viver?
A existência de cada um é singular, e não cabe na lógica de produção deste mundo que nos chama o tempo todo para atender suas exigências. Existir está além do que cada um faz, dos papéis que cumpre, do que produz, do que pensa ou fala. E pensar sobre isso incomoda, pois nos coloca diante de possibilidades diversas do mundo, nos convocando a escolher sobre o que de fato faz sentido ou não.
Pensar na vida como algo que vai acabar abre novos caminhos para habitar um mundo que seja mais próprio de sentidos e significados, com uma vida que alimente e nutra não só o corpo, mas a alma também. Afinal, se tenho apenas essa vida para experienciar, por que não escolher aquilo que me faz sentir que vale a pena viver?
O que colore a vida e nutre a alma?
Quando você pensa na questão “qual é a vida que vale a pena viver?”, quais respostas aparecem? O que essa pergunta mobiliza em você? Em cada um pode movimentar algo diferente, mas provavelmente não faz chegar à conclusão de que o que da cor à vida são os prazos cumpridos. Nem o tamanho da produção da semana. Tampouco, a roupa que você precisou comprar para cumprir um protocolo específico de trabalho.
E isso significa que o trabalho e tudo que tem a ver com ele não é importante? Não. Com certeza o trabalho ocupa um tempo e espaço importante na vida de cada um.
Mas não é tudo, e não é suficiente para nos nutrir por completo.
Às vezes o que nutre a alma e colore a vida é o tempo com os amigos ou familiares conversando e tomando um café ou outra bebida qualquer. Outras vezes pode ser o passeio feito no meio da tarde de um sábado no museu, parque, livraria, etc.
Pode ser também ter momentos de pausa apreciando a natureza, um pôr do sol, seu pet brincando sem preocupações com o amanhã, ou simplesmente a vida acontecendo em seu ritmo próprio e incontrolável. Ou ainda, pode ser passar um dia lendo aquele livro que te prende tanto na história, que você nem percebe o tempo passar. Pode ser muitas coisas. Alimentar e nutrir a alma está ligado a degustar a vida com momentos de prazer, contemplação e vivência, de maneira entregue. Tem a ver com alimentar a alma para seguir tendo força para continuar.
E a consciência da finitude nos abre para esse modo mais prazeroso de experimentar a vida, nos convocando o tempo todo a viver. Afinal, se a vida em algum momento vai acabar, eu tenho oportunidades e chances limitadas de fazer o que realmente importa para mim.
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Jéssica da Silva Lisboa Psicóloga Clínica, com ênfase em uma perspectiva fenomenológico-existencial Facilitadora de clubes de leitura e grupos terapêuticos
CRP 06/148969

